Havia na casa uma pasmaceira, um cheiro doce e familiar, mas
com uma nota de coisa guardada e barata empalhada no cantinho do sofá.
A luz natural, pouca, que entrava, vinha de uma frestinha
mal encaixada da janela, que atravessava a cortina desbotada. O tal sofá, dono
da barata, quase não tinha mais cor, era um vermelho lavado com um rasgado no
couro, desses que espetam o traseiro dos desavisados.
No cantinho, meio na diagonal para a televisão estava a
cadeira, onde ela costumava ficar balançando lentamente enquanto catava o
feijão e ouvia as notícias do dia. A cadeira agora estava vazia, nem balançava
mais, de tanta teia de aranha.
Cecília atravessou a sala, e chegou a cozinha relembrando de
como, ali, o ambiente mudava por completo, era cheio de luz, de sons e
deliciosos aromas. Quando a encontrava lá, tinha certeza que era um dia bom,
que ela estava lúcida e que havia feito bolo para recebê-la.
Mas, as vezes, a encontrava sentada no degrau da sala para a
cozinha, meio sem saber o que estava fazendo, ainda de pijama e com o cabelo
despenteado. Nesses dias ela já sabia que teria trabalho, convencê-la a se
trocar, lavar e pentear.
Fugindo da lembrança dos dias difíceis sentou-se na
empoeirada mesa da copa, olhou pela janela e se lembrou das brincadeiras da infância
no quintal, e de quando a mãe os chamava daquela janela para almoçar. Era
sempre a mesma coisa: - meninos, venham
comer! Lavem essas mãos na torneira aí de fora, quem vier sujo não tem doce!
E eles iam limpinhos, na maior algazarra disputando quem comeria
jiló sem fazer cara feira, quem tinha coragem de jogar o fígado para o cachorro
e outras loucuras infantis que faziam do almoço o ponto alto do dia.
Sorrindo, sozinha, numa cozinha abandonada se sentiu um
pouco louca também, talvez a doença da mãe tenha se manifestado assim, devagar,
como naquele dia em que ela colocou o feijão no fogo e saiu para atender uma
unha em outro bairro. Ou, ainda no dia
em que se distraiu na máquina e costurou o dedo numa calça.
Agora, depois de tantos anos tinha juntado os cacos dessas
lembranças e percebido que a vida havia sido mesmo cruel com a mãe, perder o
marido aos 42 anos e com 4 filhos para criar devia deixar qualquer mulher meio
pirada, ainda mais naquela época. Tudo era mais difícil, ela fez milagre com o
que tinham. Lavou roupa pra fora, fez salgados, doces, uns bicos como manicure,
vendeu Avon, costurou, e nunca teve tempo para chorar a perda, ou para ficar de
cama porque a tristeza era grande demais. Haviam 4 bocas para alimentar.
A mãe se doara ao máximo. Todos os filhos se formaram, e
tinham condições de pagar aquele ótimo lugar em que ela estava ultimamente.
Agora, era a tarefa de Cecília vender a velha casa. A sua demanda, nessa última visita, era resgatar os últimos pertences e seguir
adiante.
Terminado o trabalho, deixou, como que por acaso, um cigarro
cair aceso no braço do sofá, e rapidamente as chamas se alastraram, como se obedecessem
a comandos invisíveis, engoliram a pequena casa.
Ela se deixou ficar para ver, observou o passado sendo
libertado no meio da fumaça espiralada que subia do terreno, levando consigo
todas as memórias guardadas nas paredes. Ela sorriu mais uma vez, se virou, e
deixou o passado nas cinzas.
Nunca mais viu sua mãe.
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