Depois de se cansar de ouvir seu nome na boca do povo e até
do sapo, ela desistiu de ser livre. Optou por só fazer sexo com o cara certo,
com anel no dedo e papel passado.
Trocou a gelada no boteco por tratamentos estéticos para
emagrecer e ficar loira.
Gastou o dinheiro da sonhada viagem de um mês pela
América Latina para colocar silicone e acabar com aquela pochete.
Renovou o guarda roupas e passou a vestir a moda atual de
Paris, tudo sendo sexy sem ser vulgar.
Parou de falar palavrão, passou a fazer cocô, xixi e nunca
soltar pum. Até na missa aos domingos ela foi.
E o resultado de toda essa revolução? Se tornou uma boneca, ficou
linda, fútil e se tornou opressora.
Quando via uma mulher de peitos pequenos na rua, achava
graça. Quando tinha de se sentar ao lado de uma pessoa obesa no consultório
médico, se encolhia pra não encostar.
Expressões como piranha, galinha, vadia e prostituta de luxo
começaram a aparecer frequentemente no seu vocabulário. Apontar os defeitos nos
outros se tornou seu passatempo preferido.
Esqueceu completamente quem era, arrumou o tal marido, casou
de branco, tirou um monte de fotos, e 2 anos depois estava grávida.
E infeliz.
Os anos se passaram, e ela continuou infeliz.
E uma vez ou outra eu a vejo na feira, com seu salto alto,
cabelo cada vez mais loiro e o olhar cada vez mais triste. Como daqueles velhinhos no asilo que não sabem
em que esquina a vida deles ficou.

