terça-feira, 9 de julho de 2013

A mulher que imaginava

Aspirou a fumaça do café, acendeu o último cigarro. Olhou pra fora mais uma vez para ver aquela chuva insistente que molhava e lavava tudo como numa cena saída de “Cem anos de solidão”, pensou que assim era melhor, do que uma chuva de sapos como em “Magnólia” .
O friozinho que entrava pela janela junto com o cheiro do café fresco eram revigorantes para a alma, toda vez que chovia e ficava frio se lembrava de uma vida que nunca vivera em alguma cidade grande, em que era editora chefe de uma grande revista internacional.
Até dava para sentir aquela vida que poderia ter acontecido, bem como várias outras. Mas essa era a que mais gostava de imaginar, acordar relativamente tarde tendo dormido com algum estranho na noite anterior, colocar a meia calça, vestir pela cabeça um vestido chique e se enfiar em botas de couro macio. Apagar um cigarro na janela do apartamento do estranho e sair para o trabalho.
Andar pelas ruas frias e limpas da cidade, passar na padaria, comprar um café e o jornal. Atender ao telefone e já resolver um problema pelo meio da rua antes de chegar ao escritório.
Passar o dia avaliando uma coisa ou outra, ser importante e conviver com gente elegante e excêntrica.
Ao final do dia ir para o apartamento bem localizado no bairro nobre, tomar banho de banheira, vestir-se, seguir para um jantar de negócios, acabar a noite em uma boate, e novamente levar pra casa aquele rapaz de 22 anos que trabalha na bilheteria do cinema.

Essa vida poderia ter acontecido, se ela quisesse, assim como tantas outras. Poderia ser a garçonete lésbica do bar de São Paulo, ou a vereadora da câmara de Ecoporanga no interior do Espírito Santo. Podia ser qualquer um, mas escolheu estar ali, seguir aquele fluxo de tempo e se casar com um homem, e ter um filho, e fumar escondido enquanto o marido estava no trabalho e o filho na escola.

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